Papo de Mãe

Materna de cabeça e coração

microcefalia

Não sai da minha cabeça… Para ser mais exata já faz um ano. Um ano que o mundo voltou os olhos para a cabeça dos nossos pequenos bebês, cujo a circunferência era menor que o esperado. Não, não sai da minha cabeça o momento que eu fui chamada para conhecer um pequeno grupo dessas mães que tinham o mundo olhando para elas. E enquanto todos olhavam com curiosidade para a cabeça desses pequenos, o meu olhar se voltou para a cabeça delas, as mães.

Um mar de dúvidas e incertezas, uma incógnita diante de um diagnóstico pouco conhecido, diante de perspectivas pouco ou nada agradáveis, diante de um problema que não saia da cabeça e até doía no coração de mãe daquela que já amava aquele jeitinho especial de ser do seu pequeno, mas que buscava incansavelmente por um culpado ou um motivo que justificasse toda aquela situação em busca do pequeno ser que lhe foi confiado… Situação que para muitas começou antes mesmo do fim da gestação e o que era para ser preocupação com parto, puerpério, amamentação, deu espaço para fisio, fono, neuro e porque não dizer neuras que sempre aparecem frente ao desconhecido. A alegria no primeiro momento deu lugar a dor, ao desespero, ao medo, angústias, questionamentos e encontrou também os olhos do preconceito…

Um ano… É exatamente o tempo que faz que a vida dessas mães se transformou, um ano que conheci mães que tiveram toda a sua rotina mudada, um ano que muitas se sentiram tristes, outras ficaram isoladas, algumas se sentiram incapazes e com raiva, exclamar um “porque eu?” por vezes era inevitável. Um ano que aprendi a respeitar a dor dessas mães, pois foi necessário esperar o tempo de cada uma delas, pois sim, elas tinham o direito de chorar, de ter raiva de questionar, chorar pelo filho que achou que teria, afinal, nenhuma mãe espera escutar que terá um filho especial.  Mas nesse mesmo ano eu pude presenciar o desabrochar do maternar todo especial da maioria destas mães, vi elas submergirem de sua própria dor, para lutarem pela dor do filho, um maternar que tirou o foco da cabeça e o transferiu para o coração, pois só assim para conseguir se encaixar nessa situação, como um quebra-cabeça que, ao ser desmontado e rearrumado, aparece realmente mais belo do que quando tinha sido montado antes.

Em um ano eu vi mães celebrarem pequenas vitórias, mas que tornaram-se tão grandes diante das circunstâncias, vitórias que iam desde abrir as mãos até poder sentar. Vi mães que exercem dia após dia a paciência de quem espera sempre o melhor, que me mostraram que gráficos e tabelas de desenvolvimento não são tão importantes assim, afinal cada criança tem o seu ritmo e elas sabem bem disso. Para elas um primeiro ano de superação e para mim a gratidão de poder ter compartilhado tantos momentos com mães que me ensinaram que o maternar deve ser simplesmente realizado de cabeça e coração!