Papo de Mãe, Papo Profissional

Não dá pra separar a mãe da mulher!

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“Não dá pra separar a mãe da mulher! Ao separá-la da mulher, deixa a mulher em segundo plano. A mãe descolada da mulher, vira uma máquina de cuidar de criança, separada do ser integral que é a mulher e isolada em um contexto de altíssima intervenção em sua psicologia e em seu corpo.  É preciso parar com isso.” (Guaraciara Gonçalvez)

Vamos começar bem do início dessa discussão: Ser mãe ou não? Eis a questão!

“Sempre sonhei em ser mãe!” Ótimo, estamos diante de uma mulher de verdade que compreende que o ápice do SER Mulher, consiste automaticamente no SER Mãe, afinal isso é o esperado pela nossa sociedade.

“Filhos? Não, obrigada!” Feminista,  grosseira que quer ir contra o princípio da espécie humana, isso não existe, certamente uma mulher egoísta! Vai ter uma vida nada significativa, pois não vai vivenciar o maior amor do mundo!

Pera, ou melhor para! Onde tem dizendo mesmo que a vida das mães são mais significativas do que das mulheres que não tem filhos? Não seríamos nós pessoas livres com um pressuposto de que cada um sabe o que é melhor pra si? Então, qual a dificuldade de aceitar que há mulheres que simplesmente não querem ser mães e são felizes assim, da mesma forma que há mulheres que não conseguem imaginar suas vidas sem os filhos e ainda há aquelas que tem e se arrependem… São muitas vertentes, não dá apenas para enxergar os extremos, então simplesmente respeite e acredite, há mulheres que são plenas e completas assim!

“Estou grávida, já sinto por esse serzinho o amor pleno e incondicional que todos falam!”
Mulher maravilhosa! Já sentiu a divindade materna desde o primeiro momento, certamente será uma boa mãe!

“Quero bem ao meu bebê, mas não sinto o tal o amor incondicional, nem imagino quando ele virá!” Insensível! Se não queria filhos, porque não se preveniu? Certeza que essa será mais uma que terá o filho e deixará com os outros para cair na farra!

Esses argumentos deterministas são perigosos e não possuem evidencias científicas! Não há uma única literatura que confirme a existência de um tal amor materno instantâneo  ou mesmo o tão falado instinto materno, ao contrário, o amor materno é um amor construído, como todos os outros, para algumas mulheres esse amor pode vir no ato do positivo, para outras  vai sendo construído ao longo da gestação e ainda há aquelas que somente vão sentir após o nascimento, afinal estamos falando das maiores mudanças da vida de uma mulher, tanto física quanto psicológica, então, onde que fala mesmo que assim que se descobre que vai ser mãe, se anula os sentimentos da mulher, que na maioria das vezes tem consciência de todas essas mudanças?

“Não consigo imaginar como vivi tanto tempo sem meus filhos, pois não há felicidade sem eles!”  Mulher de fibra! Sabe que a vida muda com a maternidade, mas não reclama, afinal teve os filhos porque quis e agora tem que viver toda a plenitude do momento, sem se apegar ao passado, afinal mãe que é mãe age assim!

“Amo os meus filhos, mas sinto falta da vida que eu tinha!” Estamos diante de mais uma mulher para ser colocada na lista de “menas mãe” afinal, como pode dizer que sente falta da vida antes dos filhos, deve ter sido uma gravidez não planejada e por isso ela desconta as frustrações nos filhos, coitada, mas quem mandou ter filhos?

Pois bem, enquanto a sociedade insistir em separar a mãe da mulher sempre teremos esses julgamentos, que resumem a essência da vida feminina em boas mulheres, aquelas que são mães e aceitam a maternidade como ela é sem nunca reclamar e mulheres egoístas aquelas que escolhem não ser mães ou tem filhos mas em algum momento sentem o cansaço  ou as mudanças que esse novo papel lhes trouxe.  Julgamentos estes que servem apenas para trazer culpa e desgaste emocional.

Na minha humilde opinião, é preciso tirar de cena essa questão de que só se pode SER MÃE ou SER MULHER e encarar que existe a Mulher e a Mãe, ambas habitando o mesmo corpo e que sentem isso em todas as suas especificidades, afinal somos seres integrais, não se deleta a mulher que existia antes da mãe, ao contrário o papel de mãe vem para somar e subtrair em vários campos da vida desta,  portanto deixem as mulheres mães em paz, para falar e sentir em toda a sua singularidade, pois só assim conseguiremos  que nossas mulheres , sejam elas mães ou não se sintam seguras para falar sobre seus sentimentos, arrependimentos, conquistas, ganhos, perdas e falhas,  como qualquer ser humano, afinal não seríamos todos nós humanos tentando desbravar, viver e sobreviver as experiências que a vida nos traz?