Papo de Mãe, Papo Profissional

Onde foi que nos perdemos?

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E aí, resolveu largar o emprego pra cuidar do filho e ser taxada de preguiçosa aproveitadora ou decidiu continuar trabalhando fora e virar uma desnaturada egoísta? Está bancando a mãezinha dedicada ou a batalhadora incansável? Quanto te custa ter que desempenhar esse papel e ter que responder socialmente por sua escolha? Como vai sua auto-estima? Sua saúde, sua sanidade? Tá cansada? Satisfeita? Feliz? Mudaria de ideia? Você consegue convencer pelo menos a si mesma de que está fazendo o melhor? O melhor pra quem? Você sente quanta culpa? É mais ou menos culpa do que quem escolheu fazer diferente de você? Temos mesmo que entrar nesse mérito?

Não se trata de discutir quem é a mais mártir, quem se sacrifica mais, quem merece mais aplausos ou quem merece ser vaiada. Não se trata de fazer a outra se sentir uma porcaria só pra você se sentir um pouco melhor que porcaria, porque essa é uma discussão que não nos leva a condições melhores do que as em que nos encontramos – mulheres oprimidas ainda lutando por igualdade e liberdade, em meio a todas as dificuldades inerentes à experiência de ser mulher e de tornar-se mãe num mundo machista.

Importa se o remendo que você fez te parece melhor que a gambiarra que eu fiz? Quando discutimos quem é a mais bem resolvida criamos ainda mais pressão onde já existe. É humanamente impossível superar todas as expectativas em todas as áreas da vida todo o tempo, inclusive pra quem se propõe ou é obrigada a fazer isso. Já está suficientemente difícil permanecer sã. Agora debater o tempo todo se é ou não fraqueza fazer escolhas e estabelecer prioridades é, pra dizer o mínimo, contraproducente.

Cobrar justificativa ou ter que ratificar a própria escolha o tempo todo, num país onde ter opção é um baita de um privilégio, me soa alienação pura. Sinto informar, mas nessa briga nos equivocamos na escolha do oponente. Quem faz a gente ter essa necessidade absurda de auto-afirmação ou de auto-comiseração não é a outra que “escolheu” diferente de mim, é outrossim, quem ou o que me obriga a ter a sensação de estar escolhendo algo quando estou optando entre o ruim e o pior. O machismo impregnado em toda a sociedade e, portanto também presente no “mercado”, impede as mulheres de avançarem na superação do machismo no âmbito domestico, familiar, social e faz com que elas precisem se sacrificar ainda mais, seja trabalhando ou se abstendo do emprego, na busca de melhores condições de vida, auto-realização, auto-estima.

A situação da mãe trabalhadora tem muito que melhorar. O déficit de creches é enorme, a licença maternidade de seis meses, adotada em pouquíssimos lugares, ainda está muito aquém do ideal. Uma quantidade absurda de mulheres é demitida quando finda a licença maternidade. Os salários das mulheres são menores que os dos homens mesmo quando realizam tarefas idênticas, ainda que a mulher seja mais qualificada. Fora a piada de mau gosto da licença paternidade. Se homens e mulheres são iguais, por que só mulheres tem licença quando o filho nasce? Por que só a mulher é obrigada a se afastar do trabalho e “parar” a carreira? Por que só elas tem que viver o temor de enterrar o “futuro brilhante pela frente”? Por que os homens não tem direito nem obrigação de cuidar dos filhos? Por que não existe sequer opção para os pais que porventura queiram ou necessitem se organizar de forma diferente? As políticas sociais e leis voltadas para a mãe trabalhadora precisam ser revisadas de modo a serem transformadas em direitos dos pais e mães.

Pra começo de conversa, licença maternidade nunca deveria ter sido resumida a período para amamentação. Deveria ser tempo para criar vínculo com o bebê, para aprender a cuidar, levar ao pediatra, ao parque, à casa dos avós. Tempo para adaptar-se aos novos ritmos de descanso (descanso?) e a outras alternativas de lazer e relacionamentos. Tempo para processar a nova realidade, adaptar-se ao novo papel, reorganizar e resignificar todas as coisas da rotina e da própria vida. E isso não é só para mães, é também para pais, que embora não tenham licença nem tampouco liberdade e, frequentemente, nem vontade ou motivação para tal, também passam pelo mesmo complexo processo de se transformarem em outras pessoas com novas responsabilidades. Na mesma linha de raciocínio, por qual razão o beneficio creche ou a possibilidade de ter o filho sendo cuidado em berçários dentro da empresa não é oferecido a homens? Os homens não tem direito de poder trabalhar perto dos filhos tendo a tranqüilidade de saber que eles estão sendo bem cuidados? Não acho isso nem utópico, nem fora da realidade. Acho justo. Não seria essa ausência de igualdade de direitos, e especialmente de deveres entre pais e mães, uma dentre tantas razões para a sobrecarga da mulher?

É absolutamente possível inventar alternativas no mundo do trabalho para que pais e mães possam ser equanimemente responsáveis pelos cuidados com os filhos. Pode-se criar soluções inteligentes que possibilitem, por exemplo, que pais e mães possam trabalhar meio período na empresa e meio período em casa, por um bom tempo depois que o bebe nasce, quando isso é permitido pela função. As empresas podem também reduzir a jornada de trabalho. Sem hipocrisia. Não é novidade para ninguém que para muitos já não é necessário passar tanto tempo no local de trabalho. Assim como não é de hoje que se sabe que passar muitas horas na empresa não significa necessariamente muita produtividade.

Com mudanças como essas pais e mães teriam mais tempo para cuidarem de todas as outras coisas da vida, tais como família, filhos, casa, lazer. Simples assim. Onde esta a dificuldade? Na mulher? No homem? No mercado? No sistema capitalista? O problema é que o “mercado”, alem de objetivar lucro a qualquer custo, é muito macho ainda, mesmo quando a chefe é mulher. Lembremos que houve desaprovação, por parte de muitas executivas, da conquista da licença maternidade de seis meses, com a justificativa de que as mulheres se auto-prejudicariam ao permanecerem tanto tempo fora do “mercado”. Há que se perguntar: faz tanta diferença assim 2 meses a mais? E quem é o mercado, senão mulheres e homens? O mercado machista nesse caso, travestido de mulher, aplica com rigor a regra de que para haver igualdade entre homens e mulheres é imprescindível que a mulher se torne homem. Impossível chegar ao ideal partindo do principio de que a igualdade tenha que ser buscada de forma a sacrificar sempre a mulher. A culpa é do machismo, a maior parcela, o resto fica para o capitalismo.

Se tivéssemos condições ao menos próximas do desejável no mercado de trabalho, não precisaríamos brigar pelas sobras. Não teríamos que chegar ao ponto de brigar pra decidir quem é a mais oprimida. Se é a que se sujeita a uma jornada extenuante e abre mão de cuidar do filho pela certeza de não ficar desamparada ou a que, em casa, trabalha e agrada de forma debilitante para garantir a continuidade do “amparo” do marido e a garantia de que o filho estará sendo bem cuidado. Temos que brigar sim, mas não entre nós. Lutar pelo fim da opressão, não só dentro mas também fora de casa, para termos de fato opção.

Fomos oprimidas, violentadas, ameaçadas e efetivamente desamparadas por tempo demais para perdermos o medo assim de uma hora para outra do abandono e da independência total. Os cuidados com a casa, o marido e os filhos foram, por tanto tempo exclusividade das mulheres, que ainda não conseguimos nos livrar da obrigação, imposta ou auto-imposta, de ter de fazê-los sozinhas. Até muito pouco tempo mulher de respeito era mulher casada e mulher realizada era a que tinha filhos, então, de um modo geral, ainda não nos permitimos não casar, não ter filhos ou tendo-os não criá-los junto com os progenitores sem nos sentirmos inadequadas ou sermos julgadas.

Para as que resolvem casar e/ou ter filhos não importa se a jornada é ou não dupla, se colocam ou não dinheiro em casa. Maternidade e casamento significam ainda, para nós mulheres, muito trabalho, seja para fazer ou para pagar e supervisionar o serviço domestico, responsabilidade ainda nossa. Esposa e mãe é tudo igual. O que varia é quanta liberdade se tem em relação a dinheiro, quantas “dores de cabeça” se pode ter para adiar sexo sem vontade e por quanto tempo se suporta ser a grande mantenedora do funcionamento perfeito de todas as coisas da família sem surtar. Varia se somos boazinhas, solícitas, cordatas ou se temos tpm o mês todo, viramos megeras e colocamos os maridos e filhos “no devido lugar”. Equilíbrio zero. Pressão demais.

É possível casar, ter filhos e não enlouquecer. E para isso, não é preciso necessariamente ser independente (embora altamente recomendável), estar sempre exausta e virar uma bruxa. Também não precisa se conformar em ser “Amélia”. Basta ter clareza e coragem de colocar os limites do que você considera importante pra si mesma no relacionamento e não ter a ilusão de que respeito e companheirismo se barganhe com solicitude em demasia ou com dinheiro como moeda de troca. O tempo desse tipo de transação já passou. Tranquilizemos nossas mães e avós que enfrentaram duramente tal realidade…Não estamos nos submetendo, nem comprando respeito com dinheiro ou sendo boas demais, estamos?

Uma coisa é certa: mulher não precisa mais casar. E é bom nos perguntarmos por qual motivo, diferente de ter um verdadeiro companheiro, as mulheres continuam se casando. E também porque, mesmo tendo clareza de que o que se quer na relação é companheirismo, se esquece de checar o nível de canalhice e machismo do candidato a companheiro antes de entrar numa fria.

Fomos impedidas de ter liberdade de escolha e estamos ainda aprendendo a entender e fixar os limites do que seja desejável para nós mesmas. Em relação aos homens e ao mercado, em relação a nossos corpos, espelhos, filhos, projetos. Essa é a grande sacada, e é por isso que devemos brigar. Não, não se sinta mal por ter acusado a outra de não ser tão boa quanto você ou de não ter um marido tão bom ou tão ruim quando o seu. É próprio do sistema capitalista, do mercado e do machismo nos alienar o suficiente até chegarmos ao ponto de acharmos que tudo é responsabilidade nossa, problema nosso, escolha nossa. É próprio do sistema nos convencer de que, se estamos mal, é por culpa exclusivamente nossa. Próprio do sistema também nos convencer de que a figura ao lado é nossa inimiga quando a ela deveríamos nos unir em solidariedade e reivindicações.

Autora: Elba Oliveira